Parar de fumar melhora a ansiedade? A ciência diz que sim
Uma revisão Cochrane concluiu que parar de fumar está ligado a menos ansiedade, depressão e estresse do que continuar. O oposto do que quase todo fumante acredita.
Resposta rápida
Uma revisão Cochrane encontrou que parar de fumar está associado a melhora em ansiedade, depressão, estresse e humor positivo, em comparação com continuar fumando. Isso surpreende quase todo fumante, porque as primeiras duas a quatro semanas pioram antes de melhorar, e é exatamente por isso que as pessoas concluem que o cigarro estava ajudando.
Pergunte a qualquer fumante por que ele fuma e o estresse vai aparecer na primeira frase. É a crença mais universal de todo o assunto: o cigarro tira o peso do dia, e parar significaria encarar a vida sem a única coisa que ajuda.
Uma revisão Cochrane das evidências encontrou o contrário. Parar de fumar está associado a melhora em ansiedade, depressão, estresse e humor positivo, em comparação com continuar fumando.
Não “não piora”. Melhora.
Por que essa crença parece tão verdadeira
A crença não é burrice. Ela está construída sobre uma experiência física real, repetida milhares de vezes, e existe um mecanismo que a fabrica.
A nicotina tem meia-vida de cerca de duas horas. Ou seja, mais ou menos duas horas depois de um cigarro, o seu nível de nicotina já caiu o bastante para que comece a abstinência inicial: inquietação, dificuldade de concentração, irritação, uma tensão de fundo que você provavelmente não chamaria de abstinência.
Essa sensação é indistinguível de estresse comum. É tensão, é desagradável, e ela chega justamente enquanto você está lidando com o seu dia.
Aí você fuma, e em uns dez a vinte segundos a nicotina chega ao cérebro e a tensão se dissolve.
Você acabou de viver, de forma vívida, um cigarro aliviando o estresse. E vive isso quinze, vinte vezes por dia, todos os dias, por anos.
O que aconteceu de fato foi que você aliviou um estado de abstinência que o próprio cigarro criou. Ele não puxou o seu estresse para baixo da linha de base. Ele te devolveu à linha de base a partir de um buraco que tinha cavado duas horas antes.
As evidências combinam com essa leitura. Fumantes, como grupo, apresentam níveis médios de estresse mais altos do que não fumantes, e esses níveis tendem a cair depois que a pessoa para, o que não é o que se esperaria se o cigarro fizesse o trabalho que as pessoas acreditam que ele faz.
A armadilha do primeiro mês
Aqui está o motivo pelo qual a crença sobrevive às tentativas de parar, e é importante saber disso antes de começar.
Ansiedade, irritabilidade e inquietação são sintomas documentados da abstinência de nicotina. Eles chegam ao pico por volta do terceiro dia e em boa parte se acomodam entre a terceira e a quarta semana.
Então as duas primeiras semanas realmente são piores. Alguém que para na segunda-feira e está ansioso e explosivo na quinta tem uma evidência pessoal fortíssima de que o cigarro segurava a ansiedade dele, e se essa pessoa fumar, o alívio que vem confirma a tese por completo.
É essa a armadilha. O período de abstinência é confundido com a condição de base, e o engano só se corrige atravessando o período.
Duas coisas deixam esse primeiro mês menos punitivo, e vale organizar as duas com antecedência:
Reposição de nicotina ou medicamento. Reduz a abstinência que produz a ansiedade logo na origem. Um farmacêutico ou médico consegue dizer quais opções existem onde você mora.
Cortar a cafeína mais ou menos pela metade. Essa aqui é genuinamente ignorada. É a fumaça do tabaco, e não a nicotina, que acelera a velocidade com que o fígado elimina a cafeína. Quando você para de fumar, o mesmo cafezinho de sempre passa a durar mais no organismo e a bater consideravelmente mais forte, produzindo coração acelerado, tremedeira e insônia que vão todos para a conta da abstinência. Vale lembrar que chá preto, mate e refrigerante de cola entram na mesma conta.
O que as pessoas relatam do outro lado
Passada a janela da abstinência, o quadro muda, e muda de um jeito que a pessoa sente, não apenas mede.
O sono costuma ser o primeiro. Mais profundo, menos picado, sem a queda noturna de nicotina que vinha fragmentando as madrugadas.
A tensão de fundo vai embora. O ciclo de duas em duas horas de abstinência leve e alívio simplesmente para de rodar, e a ausência dele é perceptível. Muita gente descreve como a linha de base finalmente se acomodando.
A logística invisível some. Quantos ainda tenho, onde eu posso fumar, dá tempo antes da reunião, trouxe isqueiro. É uma carga mental pequena e contínua, e as pessoas só reparam nela quando ela cai.
A confiança em si. Fazer uma coisa difícil que você não acreditava ser capaz de fazer muda o que você acha que consegue enfrentar, e esse não é um efeito psicológico pequeno.
Se você tem um diagnóstico
As evidências favoráveis sobre humor depois de parar incluem pessoas com transtornos mentais, e a ideia de que o cigarro está tratando a sua ansiedade não é sustentada pelo que a pesquisa mostra.
Ainda assim, dois pontos práticos.
Avise quem faz o seu acompanhamento antes de marcar a data. Parar de fumar pode mudar a forma como o seu corpo processa certos medicamentos, o que pode pedir uma revisão de dose. Essa é uma conversa para o seu profissional de saúde, não para um artigo.
E escolha o momento com bom senso. Parar no meio de uma crise aguda é mais difícil do que parar num trecho estável. Isso é agenda, não desculpa para adiar indefinidamente.
O que fazer nesta semana
- Conte por três dias sem mudar nada. Registre cada cigarro na hora, com uma palavra para o sentimento que veio antes dele. A maioria descobre que bem menos cigarros são movidos a estresse do que imaginava.
- Corte a cafeína pela metade no dia em que parar, e nada com cafeína depois do meio da tarde.
- Resolva a parte da abstinência. Pergunte ao farmacêutico sobre reposição de nicotina combinada ou remédio para parar de fumar.
- Fale com quem te acompanha se você usa alguma medicação de uso contínuo ou faz tratamento de saúde mental.
- Planeje quinze dias ruins e só depois reavalie. Julgue a decisão de parar na sexta semana, não na segunda. Na segunda semana quem está falando é a abstinência.
O Puff Counter foi feito para o primeiro passo: um toque por cigarro ou tragada, um limite semanal que se recalcula a partir da sua média real e um histórico que mostra quando o seu fumo realmente acontece. O padrão costuma ser mais relógio do que crise.
Dois minutos, hoje
Só por hoje, registre cada cigarro com uma palavra para o que você sentiu logo antes dele.
Amanhã, leia a lista. A maioria das pessoas descobre que “esperando”, “entediado” e “terminei uma tarefa” aparecem muito mais do que “estressado”. Essa é a primeira rachadura na crença de que era isso que estava segurando você de pé.
Perguntas frequentes
O cigarro ajuda mesmo com o estresse?
Não do jeito que parece. O que o cigarro alivia é, em boa parte, a abstinência criada pelo cigarro anterior, e o corpo lê esse alívio como calma. Quem fuma apresenta níveis médios de estresse mais altos do que quem não fuma, e a calma só chega depois do desconforto que o próprio cigarro causou.
Parar de fumar vai piorar minha ansiedade?
Temporariamente, e depois melhora. Ansiedade, irritabilidade e inquietação são sintomas documentados de abstinência, que atingem o pico por volta do terceiro dia e em boa medida se acomodam entre a terceira e a quarta semana. Passado esse período, a revisão Cochrane aponta menos ansiedade e depressão do que em quem continua.
Quanto tempo até o humor melhorar depois de parar?
A maioria das pessoas atravessa o pior dos sintomas de humor entre a terceira e a quarta semana, e muita gente percebe uma melhora real entre o primeiro e o terceiro mês. O sono costuma ser a primeira coisa que as pessoas relatam, e dormir melhor melhora tudo o que vem depois.
Devo parar de fumar se tenho depressão ou transtorno de ansiedade?
As evidências sobre humor depois de parar são favoráveis e valem também para quem tem transtornos mentais, mas essa é uma decisão para tomar com quem faz o seu acompanhamento, em parte porque parar de fumar pode mudar a forma como o corpo processa alguns medicamentos. Avise antes de marcar a data.