Cigarro, ronco e apneia do sono: a ligação com a via aérea
Quem fuma tem mais apneia do sono. A via aérea inflamada estreita a passagem, e a abstinência de nicotina da madrugada ainda fragmenta a noite por cima disso.
Resposta rápida
Quem fuma tem prevalência maior de apneia obstrutiva do sono do que quem não fuma. A fumaça inflama e incha os tecidos que revestem a via aérea superior, estreitando uma passagem que já é estreita, e a abstinência de nicotina da madrugada fragmenta o sono por conta própria. O ronco costuma melhorar poucas semanas depois de parar.
Se alguém já te disse que o seu ronco piorou, ou se você acorda arrasado depois de oito horas, ou se a pessoa que dorme ao seu lado já viu você parar de respirar durante o sono, o cigarro pertence a essa conversa.
Quem fuma tem prevalência maior de apneia obstrutiva do sono do que quem não fuma, e o motivo é mecânico o bastante para dar para visualizar.
O que é a apneia obstrutiva do sono
Enquanto você está acordado, os músculos da sua garganta mantêm a via aérea aberta sem que você precise pensar nisso. Durante o sono, eles relaxam.
Na apneia obstrutiva, a via aérea estreita ou fecha por completo durante alguns segundos de cada vez. O oxigênio cai, o cérebro te desperta parcialmente só o bastante para devolver tônus ao músculo, você engasga ou ronca alto e volta a dormir, tipicamente sem nenhuma lembrança do episódio. Isso pode acontecer dezenas ou centenas de vezes por noite.
As consequências não param no cansaço. Apneia não tratada está associada a pressão alta, doença cardiovascular e AVC, e à sonolência diurna que torna dirigir perigoso.
Como o cigarro estreita a via aérea
Cada parte da sua via aérea superior — nariz, garganta, palato mole — é revestida por um tecido que responde à irritação inchando e inflamando.
A fumaça do cigarro é um irritante que passa por todo esse caminho, muitas vezes por dia, durante anos.
Tecido cronicamente inflamado e inchado deixa uma passagem já estreita ainda mais estreita. Passagem mais estreita colapsa com mais facilidade quando o músculo relaxa. Há também mais muco, porque o cigarro paralisa e destrói os cílios que normalmente o removeriam, e o nariz entupido empurra a pessoa para respirar pela boca, o que aumenta tanto o ronco quanto o risco de colapso.
O ronco em si é simplesmente o som do ar turbulento passando por tecido frouxo e estreitado. É por isso que ele é uma das primeiras coisas a melhorar quando o inchaço cede.
O segundo mecanismo: a sua noite já está picada
Mesmo sem apneia, o cigarro estraga o sono diretamente.
A nicotina tem meia-vida de cerca de duas horas, então uma noite de sono é de longe o intervalo mais longo que o seu corpo passa sem ela. Em quem fuma mais, os níveis podem cair o suficiente durante a madrugada para produzir uma abstinência leve, e a pessoa acorda inquieta, querendo alguma coisa, muitas vezes sem identificar o quê.
A nicotina também é estimulante, então o cigarro da noite trabalha contra o adormecer exatamente na pior hora.
Junte as duas coisas e você tem um fumante com a via aérea estreitada sendo acordado pela própria via aérea e pelo nível de nicotina, na mesma noite.
O que melhora quando você para, e quando
Em dias a semanas, a inflamação da via aérea começa a ceder. O ronco costuma ser a primeira coisa que alguém percebe, e em geral quem relata é quem dorme ao lado.
Em semanas, o nariz entupido e o muco melhoram conforme os cílios se recuperam.
Em três a quatro semanas, some a desorganização do sono ligada à abstinência. E aqui vem a parte honesta.
O sono piora antes de melhorar. Dificuldade para pegar no sono, sono mais leve, despertares frequentes e sonhos muito vívidos são características padrão da abstinência de nicotina na primeira ou segunda semana. Quem parou de fumar para dormir melhor e teve três noites ruins conclui que não funcionou, e volta.
Vale saber de antemão que os primeiros quinze dias não são o resultado. As semanas três e quatro são.
Um acelerador escondido merece nome, porque ele resolve boa parte da insônia do pós-parada. É a fumaça do tabaco, e não a nicotina, que acelera a velocidade com que o seu fígado elimina a cafeína. Quando você para, o mesmo café dura muito mais no organismo e bate mais forte. As pessoas mantêm a dose de sempre, ficam olhando o teto e culpam a abstinência. Cortar a cafeína pela metade ao parar é uma das mudanças de maior retorno disponíveis, lembrando que chá preto, mate e refrigerante de cola entram na conta.
Se você pode ter apneia, parar não é a resposta inteira
Isso importa, e é o ponto em que o artigo deixa de ser sobre cigarro.
A apneia do sono tem vários contribuintes: peso, anatomia da mandíbula e da via aérea, idade, álcool, obstrução nasal. O cigarro é um deles, e é o que dá para remover. Mas parar pode reduzir a apneia sem resolvê-la, e apneia não diagnosticada vale genuinamente ser diagnosticada.
Peça ao médico uma avaliação do sono se você tem:
- Ronco alto, especialmente com pausas que outra pessoa já notou
- Despertar com sensação de engasgo ou de sufocamento
- Acordar sem descanso depois de uma noite inteira, na maioria das noites
- Sonolência diurna, principalmente cochilar sentado ou ao volante
- Dor de cabeça ao acordar
- Pressão alta difícil de controlar
Se você já tem diagnóstico e usa um aparelho ou uma placa, siga usando enquanto para de fumar. Qualquer mudança nesse tratamento é decisão de quem faz o seu acompanhamento.
O que fazer nesta semana
- Pergunte a quem dorme perto de você se você ronca e se já te viu parar de respirar. Essa é uma informação que você não consegue coletar sozinho.
- Conte por três dias sem mudar nada. Cada cigarro ou tragada, com o horário. Aqui os da noite são os que mais importam.
- Estabeleça um horário limite para a nicotina, três horas antes de deitar, e mantenha isso enquanto reduz.
- Corte a cafeína pela metade no dia em que parar, e nada com cafeína depois do meio da tarde.
- Marque uma avaliação do sono se algum dos sintomas acima se aplica. Não espere para ver se parar de fumar resolve.
- Julgue o seu sono na quarta semana, não na primeira.
O Puff Counter foi feito para o passo dois: um toque por cigarro ou tragada pelo celular, pelo relógio ou pela tela de início, e um histórico com horários que mostra exatamente quão tarde é o seu último.
Dois minutos, hoje
Hoje à noite, faça uma pergunta a quem dorme perto de você: meu ronco mudou, e você já me viu parar de respirar?
Depois anote a hora do seu último cigarro do dia. Esses dois fatos são o começo da avaliação, e um deles é um número que você já pode mudar até amanhã.
Perguntas frequentes
Fumar faz roncar?
Faz. O ronco é o som do ar turbulento passando por tecido frouxo e estreitado, e a fumaça inflama e incha exatamente esses tecidos no nariz, na garganta e no palato mole. Quem fuma ronca mais do que quem não fuma, e o parceiro costuma notar melhora poucas semanas depois de a pessoa parar.
O cigarro causa apneia do sono?
Quem fuma tem prevalência maior de apneia obstrutiva do sono. A inflamação e o inchaço causados pela fumaça estreitam a passagem, o que torna o colapso durante o sono mais provável. O cigarro não é a única causa, já que peso, anatomia e idade também contam, mas é uma das causas que dá para remover.
Parar de fumar resolve a apneia do sono?
Pode reduzir, e em geral melhora o ronco, mas não parta do princípio de que resolve a apneia sozinho. A apneia tem vários contribuintes e precisa de avaliação adequada. Se você já tem diagnóstico, siga usando o seu tratamento e converse sobre qualquer mudança com quem faz o acompanhamento.
Por que acordo de madrugada desde que parei de fumar?
Sono picado é parte normal da abstinência de nicotina nas primeiras semanas: sono mais leve, mais despertares e sonhos muito vívidos são todos comuns. Costuma se acomodar entre a terceira e a quarta semana. Manter a mesma cafeína de antes é uma causa oculta frequente, porque a fumaça acelerava a eliminação dela.